sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

One by one


Porque todos temos uma vida cheia de responsabilidades, para com família, trabalho e todas as variantes de uma vivência social que exige uma série de interacções, de vez em quando acontece, não temos tempo para executar o conjunto de posturas que aprendemos na escola. O que fazer? Não praticar nesse dia ou praticar menos?

Qualquer professor de Ashtanga Vinyasa Yoga que tenha frequentado o KPJAYI, em Mysore, afirmará que todos devem praticar até á última postura que receberam, que não devem omitir posturas, especialmente aquelas que menos gostam ou que custam mais, que não devem adicionar posturas que não vos foram ensinadas, que devem esperar na última postura que receberam e só avançam para a próxima quando o professor vos ensinar, que há um respeito a ser mantido em relação ao vosso professor e ao sistema de yoga que estão a praticar.

Nos dias que o tempo é escasso deverão praticar, mesmo que seja menos. Se não sabem o que praticar quando têm menos tempo, lembrem-se que o método correcto de ensino e prática do Ashtanga Vinyasa Yoga, assenta na prática da sequência sem omissões e adições de posturas

Mantenham a base das séries, respeitando a sua ordem precisa e de acordo com o vosso tempo pratiquem, os surya nasmaskar A e B (3 ou 5 ciclos), prossigam para as posturas de pé, podem parar em Parsvottanasana (as mãos unidas entre as omoplatas), passam para as posturas finais e o descanso (mais ou menos de 5 minutos) e terão uma prática de 30 minutos. Se ainda têm disponibilidade então façam todas as posturas de pé (até Virabhadrasana B), mais as posturas finais e o descanso, resultando numa prática de 45 minutos. De acordo com o tempo vão aumentando as posturas, mas sem invenções ou seja, seguindo a ordem desta, o sistema está estabelecido para que cada postura prepara a próxima.

domingo, 19 de dezembro de 2010

Ashtanga Way mas sem pressão


Sharath Rangswamy, neto do Guruji (1915-2009), continua a acentuar que esta prática deve ser feita 6x por semana, com um dia de descanso, normalmente ao sábado e com pausa nos dias de lua nova e lua cheia. Que as séries de posturas têm uma ordem precisa, onde a anterior prepara a próxima e que é esperado que o aluno as pratique como lhe foi ensinado, sem omissões ou adições de asanas. Que o método foi concebido como prática diária, que prepara o corpo para um controlo da mente e que pela respiração e pelas posturas, o sadhaka (praticante) vai desenvolvendo uma relação mais sincera consigo mesmo, com os outros e com o que o rodeia.

Seguindo este caminho, o praticante vai adquirindo um maior compromisso, dedicação e disciplina para com a prática, mas estas características não são impostas pelo professor nem pelo próprio método, o professor apenas mostra como este sistema de Yoga funciona e o método é descrito sem estar assente em dogmas ou sem estar delineado por regras rígidas, recorde-se que este tem sido adaptado ao longo dos anos, primeiro por Krishnamacharya, depois pelo Guruji e provavelmente será ajustado pelo próprio Sharath. Não o fizeram porque lhes deu na cabeça, mas porque a investigaram no seu próprio corpo e porque a observaram directamente nos seus alunos. Recorde-se que Krishanamacharya é reconhecido como um dos grandes mestres do Yoga, muito contribuindo para o conhecimento desta filosofia prática e que Pattabhi Jois teve um papel de destaque na difusão mundial do Ashtanga Yoga.

Todos temos diferentes percepções, motivações e resoluções para com esta prática, cabe a cada um decidir o que fazer com ela e como geri-la, mas por outro lado é papel do professor motivar os alunos para uma prática mais regular, sincera e dedicada, sem que isso signifique pressão ou imposição. Porque o professor existe para providenciar luz, mais discernimento, conhecimento, para facilitar, para abrir caminho, mas é sempre o aluno que decide se quer ou não seguir as suas indicações. Existe liberdade, mas terá sempre de haver respeito, respeito para com o professor e para com o sistema de Yoga que pratica.

Ashtanga sim, pressão não.
Método sim, dogma não.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

As fases da Lua e o Ashtanga Yoga



Segundo a tradição de Shri K. Pattabhi Jois (1915-2009) que continua a ser difundida por Sharath Rangwswamy, não se pratica Ashtanga Vinyasa Yoga nos dias de lua nova e lua cheia. O ser humano é maioritariamente constituído por água e como as luas influenciam as marés, acredita-se que estas também terão uma predominância sobre nós. Nestes dias ficamos com uma energia mais instável, que tem implicações no nosso corpo e na nossa mente, criando maior propensão a nos magoarmos durante a prática.

Dias de lua nova e lua cheia em 2011 -
Janeiro -
Lua Nova - dia 4, terça-feira
Lua Cheia - dia 19, quarta-feira

Fevereiro -
Lua Nova - dia 3, quinta-feira
Lua Cheia - dia 18, sexta-feira

Março -
Lua Nova - dia 4, sexta-feira
Lua Nova - dia 19, sábado
Abril -
Lua Nova - dia 3, Domingo
Lua Cheia - dia 18, segunda-feira

Maio -
Lua Nova - dia 3, terça-feira
Lua Cheia - dia 17, terça-feira

Junho -
Lua Nova - dia 1, quarta-feira
Lua Cheia - dia 15, quarta-feira

Julho -
Lua Nova- dia 1, sexta-feira
Lua Cheia - dia 15, sexta-feira
Lua Nova - dia 30, sábado

Agosto -
Lua Cheia - dia 13, sábado
Lua Nova - dia 29, segunda-feira

Setembro -
Lua Cheia - dia 12, segunda-feira
Lua Nova - dia 27, terça-feira

Outubro -
Lua Cheia - dia 12, quarta-feira
Lua Nova - dia 26, quarta-feira

Novembro -
Lua Cheia - dia 10, quarta-feira
Lua Nova - dia 25, sexta-feira

Dezembro -
Lua Cheia - dia 10, sábado
Lua Nova - dia 24, sábado

Mantra final por Sharath Rangswamy

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

2011, crescer para um estado de saúde e paz...



Desejamos uma maravilhosa entrada em 2011, que este seja um ano de introspecção e mudança, de crescimento e confiança, de responsabilidade e de motivação para atingirem todas as resoluções a que se propõem.

Que seja um ano de maior capacidade de decisão e de acção e que em plena consciência, consigam superar os obstáculos que se apresentam no vosso caminho. Façam uso da vossa prática de Ashtanga Vinyasa Yoga e tenham a oportunidade de viver o vosso quotidiano com mais energia e vitalidade, sem que o stress ou as dificuldades diárias vos impeçam de atingir, e manter um estado vibrante de saúde e paz.

" Disease is brought about by a state of imbalance in the body. All organs (internal and external) are interdependent and if an imbalance or malfunction occurs in one organ, all other are affected. It is therefore of primary importance that we adopt a healthy lifestyle and respect the fine balance of processes at work in the body. Until and unless our internal organs are healthy, we cannot be healthy. In today´s modern living and working conditions, with inadequate attention to lifestyle, diet and exercise, it is not surprising that the organs of the body are over-loaded. if we cannot eliminate the toxins which are taken into the body, a build up of waste matter is inevitable, and disease follows.

The practice(...) helps to cleanse and purify the internal organs of the body. (...) Yogasana can help to rebalance an already diseased body and maintain balance in a healthy body. " Miele, Lino, ASHTANGA YOGA, 2ª Edição, 1996

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Beyond pain


No fundo do túnel há sempre luz, basta acreditar, encher o peito de ar e caminhar passo a passo com confiança, perdendo tempo em sentir tudo, sem medos, sem pressas, sem dúvidas. O mesmo se passa em cima do seu tapete, pise-o todas as manhãs, sinta-o debaixo dos seus pés e com a respiração, faça cada uma das posturas que aprendeu. Garanto-lhe que haverão dias que irá sentir dores, outros em que sentirá pequenos incómodos de um corpo mais fechado, mais rijo, noutros o seu coração mostra-lhe outro género de bloqueios, os emocionais e talvez haja necessidade de largar uma ou duas lágrimas, ou talvez mais. Também lhe asseguro que existirão dias que a sua cabeça viajará para todo o tipo de pensamentos, ora rumo ao seu passado, ora rumo ao seu desejado futuro, práticas que recordará como difíceis, mas no final, serão estas as que mais nos ensinam.

Na prática de Ashtanga Vinyasa Yoga também existem os dias fáceis, onde o seu corpo está aberto, flexível, forte, a sua mente está focada na respiração, nos dristhis, a disciplina de ter repetido a prática dia após dia lhe traz o sthira sukha das posturas, que o permitem fluir num ritmo intimamente seu, para uma realidade, que não se consegue bem explicar por palavras, mas é algo onde o nosso corpo reconhece a nossa mente e em conjunto, vivem com o nosso coração num estado único de paz.

Parece contraditório falar de dores e escrever sobre Yoga, parece um oposto, já que o Ashtanga Vinyasa Yoga utiliza a respiração com os movimentos e posturas para chegar ao controlo do corpo e posteriormente ao controlo da mente. É um sistema progressivo, onde a primeira série de posturas permite uma desintoxicação do organismo e um realinhar do corpo, a segunda sequência prima pela purificação do sistema nervoso e as terceiras séries, as Sthira Bhaga, são tidas como sequências que orientam o praticante para um maior estado de equilíbrio e comunhão. Esta é uma prática gradual, o método não tem por objectivo que o praticante faça a primeira série ou a quarta, o caminho é a aprendizagem sincera, dedicada e longe de expectativas.

Muitos são os praticantes que falam em dores, mas também reconhecem que essas mesmas dores foram provocadas pelo seu desejo de avançarem em determinada postura, por forçarem o corpo, ou pela falta de atenção na hora de praticarem. Se estivermos a acender o fogão com um fósforo e a olhar para o lado, o mais normal será nos queimarmos, o mesmo acontecerá no seu mat, a repetição das posturas, não deve ser feita de forma mecânica, cada respiração e movimento têm de ser sentidos e vividos, Yoga não é exercício físico, embora tenha benefícios para o seu corpo.

Há ainda outro tipo de dores, aquelas que acontecem porque o corpo está a realinhar. Imagine que a sua cabeça é uma bola de bólingue, pesada, redonda, uns desvios para a frente ou para trás, irão com toda a certeza trazer-lhe dores no pescoço, etc. Enquanto o corpo passa pelo processo de realinhamento e depois de anos a manter uma postura incorrecta, é normal que sinta algum desconforto ou dor. O que deve ter presente, é não forçar, respirar correctamente e ter paciência, porque ao fundo do túnel há mesmo luz.

Sejam dores físicas ou dores emocionais, tenha paciência, reconheça os seus limites e devagar, sem expectativas, mas com fé, especialmente em si, pratique. Lembre-se da respiração, sem respiração não há Yoga, nem há asana (postura).

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Tristhana



"Tristhana", significa os 3 focos de atenção ou acção e eles são: posturas (asana), respiração e dristhis (focos oculares). Sem Tristhana não existe prática de Ashtanga Vinyasa Yoga e estas três técnicas são utilizadas em conjunto.

De acordo com os Sutras de Patanjali*, as posturas deverão ser "Sthira Sukham Asanam", estáveis e confortáveis. Asana é postura, também traduzido como sentar ou uma forma de estar presente. Os asanas preparam o nosso corpo purificando-o, fortalecendo-o e tornando-o flexível.

A palavra Sthira significa estável, firme, sem mudanças. Para alcançarmos esta estabilidade, precisamos de nos manter presentes, atentos ao que estamos a fazer. Desenvolvendo um estado de quietude física e mental, controlando e integrando o corpo e a mente. Sthira é o oposto de agitação, é uma base estável, uma base forte, resistente e conquistada pelo empenho, dedicação e regularidade na prática.

Sukha é traduzido por confortável, por fácil, alegre, relaxado. Para executar as posturas com conforto e alegria, são necessários anos de aprendizagem, para superar o esforço inicial. A prática de asana deve respeitar o princípio de Ahimsá - não violência para connosco, para com os outros e para o que nos rodeia - e que nos trará felicidade.

Para conseguirmos praticar Ashtanga Vinyasa Yoga, é necessário regularidade, sem esta é impossível desenvolver a prática e em última instância sentir os benefícios do Yoga. Mas estes não são o objectivo do Yoga, Yoga é " Cittra Vritti Nirodah", o controlo das flutuações da mente. O Ashtanga Vinyasa Yoga acenta no vinyasa - sistema que coordena respiração e movimento - para chegar ao controlo da mente.

Outro aspecto do Tristhana é a respiração, feita em Ujjayi Pranayama, uma respiração vigorosa e nasal aliada ao movimento e posturas, promove o aumento da nossa circulação sanguinea, a oxigenação do nosso cérebro, dos músculos e dos nossos órgãos. Este Ujjayi tem o mesmo ritmo e volume tanto nas inspirações e expirações e utiliza em cada fase os bandhas (fechos energéticos), especialmente o mula bandha (contracção do esfíncteres da zona do períneo) e o uddiyana bandha (o recolher para dentro e para cima da zona abdominal inferior). Os bandhas retém a energia no nosso corpo subtil e direccionam-na pelas nadis (canais energéticos), activando os centros energéticos (chakras) que temos ao longo da nossa coluna vertebral.
As nadis, canais subtis energéticos, são como as veias que transportam o sangue pelo nosso corpo. As nadis não são visíveis, mas fazem a circulação da energia.

O último aspecto do Tristhana, são os dristhis - os pontos onde dirigimos o olhar enquanto praticamos asana. Existem nove, no nariz, entre as sobrancelhas,no umbigo, no polegar, na mão, nos pés, para cima, para o lado direito e para o lado esquerdo. Estes focos oculares mantém-nos mais presentes, atentos.

O Tristhana activa o nosso calor, o nosso fogo interno e promove a purificação do nosso corpo e a estabilidade da nossa mente, imprescindíveis no caminho do Yoga.

*sábio indiano, que é denominado como o codificador do Yoga, aquele que escreveu pela primeira vez sobre os conhecimentos do Yoga, no seu famoso clássico "Yoga Sutras"

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Respirar, inspirar-se, sentir-se, escutar-se



"Respirar, inspirar-se, sentir-se, escutar-se."

A prática de Ashtanga Yoga pode ter várias definições, cada praticante terá a sua, cada um que a faz regularmente, ganha noções e conceitos a cada dia, os limites são inexistentes e o que serve de medidor é a forma como vivemos a vida, dentro e fora do nosso tapete. Passar por cima das dores, da angústia e ás vezes até da doença, contornar as armadilhas do Ego e da vaidade, não cair nos buracos da inveja, mesquinhez e do vazio de não sentir a alma, sorrir nos bons e nos maus momentos, acreditar que melhores dias virão e humildemente dar o nosso melhor em cada acção. Assumir que o caminho que trilhamos é fruto das nossas escolhas, da nossa responsabilidade e por isso, que sejam opções conscientes, tomadas por uma visão positiva, saudável, verdadeira, sem ficarmos presos aos medos, ás incertezas de um passado ou de um futuro.

Viver o instante, só temos este corpo, pelo menos neste mundo, então que vivamos aqui e ali, mas agora. Conduzir a nossa vida para algo com significado e entre um chaturanga, um urdhva mukha, um adho mukha, entre sentir a respiração, ora a inspiração, ora a expiração, observar o calor que produzimos, as gotas de suor a correrem pela face, pelos braços, pelas pernas, levar tudo isto lá para fora e fazer com que nos movamos com respeito, amor, amizade e acima de tudo, dignidade. Não uma dignidade produzida pelo o que está certo ou errado, mas uma dignidade que nasça na alma, uma que existe por escutarmos a nossa voz interna e em respeito com esta, moldarmos a nossa forma de ser.

A prática de Yoga tem muito que se escreva, os diversos métodos apoiam-se em técnicas diferentes e normalmente quem está ligado a uma vertente, tende a afirmar que esse é o caminho, o Ashtanga Vinyasa Yoga, não faz a ostentação de ser o melhor ou o certo, afirma que pelo o uso do Vinyasa, sistema que coordena respiração e movimento, o praticante consegue adquirir a destreza física, mental e emocional necessárias para a meditação e em última instância, para a libertação - moksha. O meio para chegar a este estado, é uma viagem interna a um universo, que não se encontra fora, mas dentro de cada praticante, são descobertas, que nos fazem pensar, sentir e agir de forma mais harmoniosa.

O Guruji, Shri K. Pattabhi Jois, afirmou que um dos aspectos mais importantes desta viagem interna, da purificação física e mental, era que libertava o coração do praticante, dos 6 venenos. Ele afirmava que o Yoga Shastra, dizia que "Deus"* existe no nosso coração como forma de luz, mas esta luz está escondida por 6 venenos: Kama(desejo); Krodha(raiva); Moha(ilusão); Lobha(ganância); Matsarya(inveja) e Mada(preguiça). A prática de yoga, mantida com regularidade e continuidade, por um longo período de tempo, permite que o praticante encontre formas de superar estes 6 venenos e que alcance um estado de luz, um estado de liberdade, de contentamento incondicional.

O Guruji não referia estes conhecimentos como meras formas mágicas para alcançar a iluminação, ele falava sim, de prática, não discursava sobre milagres, sobre sorte ou azar, mas proclamava que praticando Yoga, todos podemos alcançar um estado de maior comunhão connosco mesmos.

* esta referência a Deus, não significa que para praticar Yoga, se tenha de seguir qualquer tipo de religião, Deus pode significar o Macrocosmo, ou uma identidade superior que existe em cada um de nós.